Maria era a senhora mais simpática da
vila. Viúva a um tempo, investia toda a sua energia de idosa em conquistar o
partidão do bairro, o senhor Joãozinho. Todo dia, ela saía para dar uma volta
pela vila, toda perfumada, maquiada, arriscando até a passar um batom cor de
rosa. Quando via Joãozinho, sentia um alvoroço de menina nova e logo começava a
se abanar. Mariazinha morava sozinha e queria muito uma companhia
masculina, claro. Tinha sonhos quentes e acordava febril, chamando por
Joãozinho. No entanto, nesses sonhos, sempre tinha a imagem do falecido com os
olhos de reprovação bem em cima dela, observando tudo que fazia.
Ela e Joãozinho trocavam
olhares há muito tempo e estavam começando a se conhecer melhor. Em
suas caminhadas matinais, sempre ficavam muito tempo conversando e contanto
sobre as suas vidas já muito vividas. Papos sobre doenças, dores e
remédios quase não eram falados. A hora do dia em João mais gostava,
certamente, era a manhã. Acordava bem cedo pra pegar o sol da manhã e dar
aquela coradinha. Comia bem e se exercitava todos os dias, tudo
conforme orientado pelo Dr. Fábio. Joãozinho gostava das conversas com Maria
porque ela o fazia esquecer da tremedeira e da osteoporose, e também porque ela
o fazia rir como se ainda fossem jovens.
Sua filha, Vandinha, dormia
semanalmente na casa do pai, dando-lhe os remédios que o velho se recusava a
tomar por pura teimosia, ou não.
- Toma, papai –
disse Vandinha, enfiando guela abaixo o remédio no pai.
- Você está me matando, não quero
esses remédios, não preciso disso! – disse João, engasgando em meio à
remédios, goles de água e muita relutância.
Um belo dia, dona Maria foi até a casa
de Joãozinho num horário que a filha não estava para perguntar o
porquê de ele não ter feito sua caminhada naquele dia.
- Bom dia, seu Joãozinho! Como
o senhor está se sentindo? – perguntou Maria
- Não tô bem não, minha
filha quer me matar – disse, simplesmente.
- O QUÊ? – Dona Maria deu um
salto e soltou um grito agudo de espanto.
- Isso mesmo,
Mariazinha... e a senhora precisa me ajudar a fugir daqui.
- Mas ela te prende aqui nessa casa?
- Sim, quando ela vem, ela me amarra
na cama e não me deixa sair.. só faz me entupir de remédio.
- Que absurdo! Olha, farei tudo
o que quiser, conte comigo. Não quero nem saber o que está acontecendo,
quero apenas te ajudar a resolver.
- Ótimo. Hoje à noite, pode ser?
- Pode. Estarei aqui.
Maria passou o dia todo muito
ansiosa, roendo as unhas e imaginando o que João iria propor a ela
como ajuda. Será que deveria ter tido mais cautela? Será que deveria se
envolver? Como seria a fuga dele? Viveria longe de Joãozinho?
Deu o horário e Maria tratou logo de ir pra casa dele.
Bateu duas vezes na porta e nada.
Achou estranho, pois o carro de sua filha estava parado bem na porta da casa.
Bateu novamente, dessa vez mais forte
e mais insistente. Nada.
Tocou a maçaneta e percebeu a
porta destrancada.
Assim que a abriu, se deparou com
Vandinha estirada no chão, cheia de sangue na cabeça. Ao seu lado, estava Joãozinho
sentado acariciando o rosto da filha.
- João, o que você fez? Valha-me
Deus!
- Eu queria sair da cama de qualquer
jeito e ela não deixava... quando ela saiu do quarto, consegui me soltar
e me agarrar à jarra de água para me proteger caso ela voltasse. Assim que
voltou, ela ficou possessa ao me ver solto e veio pra cima de mim! Para me
proteger, dei-lhe uma jarrada bem na cabeça. E pronto. Agora está
morta e eu estou livre.
- Livre? Como você acha que escapará
desse crime absurdo? Como foi capaz de matar a sua própria filha?
- Eu não matei a minha filha. Você
matou – disse João com os olhos fincados nos de Maria.
- EU? Eu acabei de chegar aqui! Eu
não matei ninguém!
- Você não faria isso por mim? Onde
está o amor que sentia por mim? E nossas caminhadas, conversas, risadas? Não
valem de nada?
Maria ficou em choque e chegou até a pensar
que Joãozinho a conquistara para ter uma cúmplice, não um amor.
Enquanto Maria, atordoada, tentava
sair da casa, João pegou-a pela cintura, enfiou em suas mãos a jarra
ensanguentada e a jogou em cima do corpo de Vandinha. Com o baque, acabou
desfalecendo.
Quando acordou, estava presa.
Desesperada, chamou o carcerário e disse que havia um engano, que não matara
ninguém. Tudo em vão.
Sentiu algo no bolso e, quando foi
ver o que era, viu-se olhando para um bilhete de Joãozinho que dizia o
seguinte: “Obrigado, minha Mariazinha, por ter prometido fazer de tudo para me
ajudar. Serei eternamente grato à você e ao seu amor."
Nesse instante, Maria
acordou assustada, toda suada, ofegante e trêmula, agradecendo por
tudo ter sido apenas um sonho.
Quando saiu de casa para mais uma
voltinha matinal, depois de se recuperar da noite agitada, encontrou com João.
Um misto de surpresa e medo veio à tona. Não houve retribuição ao aceno de
mão e muito menos o beijinho no rosto. Joãozinho olhou para Maria sem
entender nada e teve a infeliz ideia de perguntar: "Dormiu bem?!"
Maria arregalou os olhos e foi correndo para casa. Chegando lá, acendeu uma
vela para o defunto e mandou rezar uma missa para que ele parasse de
atormentá-la com esses sonhos horríveis. “Defunto apegado, me deixa viver em
paz”, pensou Mariazinha antes de tirar a foto do marido da parede da sala de
jantar.
Nesse dia, Mariazinha dormiu
muitíssimo bem, mas não sonhou. Não sonhou porque tinha, finalmente, Joãozinho
do seu lado beijando-a, amando-a e a fazendo sentir como se tivesse 20 anos de
idade.
Pela manhã, quando ainda estavam
despertando, batidas fortes na porta ecoavam pela casa inteira, alertando-os.
- Mas quem será tão cedo? – perguntou
Mariazinha preocupada.
- Deve ser o entregador de pão –
respondeu Joãozinho.
Maria foi até a porta e, quando a
abriu, havia dezenas de policiais.
- O que aconteceu, policiais? – perguntou
assustada.
- O senhor João Augusto se encontra?
– responderam bruscamente.
- Sim.. mas o que houve?
- Vá chama-lo, por favor!
Enquanto o policial insistia que
Maria fosse chamar João, ouviu-se um estrondo na cozinha. Os policiais
chegaram, mas já era tarde demais. Joãozinho quebrou a janela e fugiu. Os
policiais até tentaram captura-lo, mas já era tarde demais. Velho ligeiro.
Maria, visivelmente abalada, foi
amparada pelos policiais antes de desmaiar.
Quando acordou, vários olhos ansiosos
a olhavam e ofereciam água. Quando recuperou a consciência, finalmente perguntou:
- Podem me falar agora que raios
aconteceu?
- A filha de Joãozinho, a Vanda, foi
encontrada morta hoje cedo, na casa dele.
- Meu Deus, coitada! Mas o que ele
tem a ver com a morte dela?
- Ele é o principal suspeito. Uma
jarra foi encontrada do lado do corpo dela.
Nesse momento, a imagem do falecido
veio em sua cabeça com um olhar de quem fala: “Eu avisei”.
Maria, gelada por dentro, pediu para que
todo mundo se retirasse, pois precisava digerir tudo aquilo. Assim que saíram,
pegou a imagem de Gerônimo e a colocou de volta na parede junto com uma vela
perfumada, jurando fidelidade até que se encontrassem no céu, ou no inferno,
novamente.