sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Nós três

Antes era só eu e você
Agora tem você, eu e a dor
A dor de não ter sido
De não ter curado
De não ter vivido
Onde estão nossos sorrisos?
E aqueles abraços matinais tão apertados?
Onde estão as mãos que se buscavam a todo tempo?
Me fale dos lábios que outrora só falavam de amor e que hoje sequer se beijam?
E nossos olhares que sempre se cruzavam e diziam tudo um pro outro?
Onde está nosso amor?
Será que debaixo do tapete junto com poeira das brigas?
Ou debaixo da cama onde nossas roupas se escondiam enquanto fazíamos amor?
Está no coração partido junto com ferida que ainda lateja?
O amor está junto com tudo o que não dissemos
Não amadurecemos
Não conversamos
Não cuidamos
Onde está nós dois?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Ando sem inspiração
Talvez de tanto sentir
Talvez de tanto pensar
Talvez de tanto tentar
Tentar ter inspiração
Tentar pensar
Tentar sentir
Não sai verso
Não sai poema
Não sai conto
A vontade ainda existe
De criar
De explorar
De escrever
Mas vou deixar a minha mente acalmar
A minha mente florir
A minha essência sair
Quem sabe se eu sentir
Aquilo que se sente ao escrever
Eu volte a dizer sobre nós nesse pequeno pedaço de papel?
Por aqui me despeço
De coração partido
Cadê a inspiração?
Acho que ficou por entre o cansaço de tentar
Por isso vou ali, descansar
E pra mim vai voltar
Aquela louca vontade de pintar
Os versos e poemas que no meu peito ainda bate
Sem forma
Sem dor
Verso esse que apenas existe
E isso já basta.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

VIDA DE NOIVA

Ana estava noiva há um ano e, na reta final, impôs para si mesma uma dieta de enlouquecer qualquer um. Ela não podia comer massa, arroz, pão, bolo, bolacha, coxinha, cachorro quente... Resumindo: Ana só podia comer alimentos sonsos e sem sabor algum. As pessoas que viviam ao redor dela também sofriam. Se alguém se atrevesse a comer uma barra de chocolate na sua frente ou qualquer outra coisa que engordasse, ela ficava irada. Pegava e jogava fora e ainda dizia: “Você sabe que eu vou casar." Faltando uma semana para o casamento, Ana já não aguentava mais o regime e estava subindo as paredes de vontade de comer tudo que via pela frente. Ela não suportava mais salivar de vontade toda vez que via a coxinha recheada de catupiry brilhando de gordura toda vez que passava em frente a lanchonete rumo ao trabalho, ou aquele quindim que reluzia o amarelo cor de ovo na vitrine da padaria perto da sua casa, ou até mesmo aquele hamburguer que a fazia delirar com seu delicioso cheiro de carne e queijo cheddar.
Ela, que antes perdia noites sem dormir preocupada com a organização do casamento, começou a não se importar mais com as reuniões para definir a decoração do evento, não se preocupava mais em saber a ordem de entrada dos padrinhos e muito menos qual dama de honra seguraria os balões e qual jogaria as flores.
O que ela queria mesmo, era que o casamento passasse rápido, para poder, finalmente, atacar os doces da festa e morrer de comer na lua-de-mel.
Um dia, depois que ela e as amigas almoçaram no shopping em um restaurante de comida natural, leia-se: sem gosto, Barbara e Pamela resolveram comprar um petit gateau recheado de doce de leite acompanhado de sorvete de creme, indo contra a vontade da noiva maluca que não podia ver doce. Apesar do chilique, Ana ficou firme, sem nem ao menos pedir um pedacinho à elas. As meninas se esbaldaram no doce enquanto assistiam Ana, de cara feia, comendo uma fatia de abacaxi que pediu no restaurante ao lado.
Enquanto comia seu abacaxi, Ana não conseguia desgrudar os olhos do doce das amigas, ficando verdadeiramente hipnotizada. Começou a se imaginar dentro de uma banheira cheia de doce de leite, passando o doce por entre os cabelos e bebendo litros dele goela abaixo.
O devaneio passou rápido quando ouviu as amigas a chamarem para voltar ao escritório. Ana ficou com a imagem do petit gateau o dia inteiro na cabeça. Comia barrinha de cereal, bananinha diet, uva passa, mas nada fazia aquela vontade incessante e louca de comer um doce passar. Queria comer uma bacia cheia deles. Ou quem sabe se afundar na banheira de doce de leite?
No final do expediente, Ana foi até a loja que vendia petit gateau e comeu três. Três bolinhos doces, perfeitos, macios, quentinhos, caudalosos, cheirosos e incrivelmente deliciosos. Nunca sentira tanto prazer comendo algo como dessa vez.
A semana foi passando, até que chegou o grande dia de ir buscar o vestido na costureira. Ana fez questão de levar todas as suas madrinhas e também seus pais para presenciarem esse momento que tanto significava para ela. Finalmente iria buscar o vestido perfeito para casar com o homem dos sonhos que ela escolheu. Ana quis deixar a data para retirada do vestido bem próxima à data do casamento, mais precisamente, dois dias antes. "Vai que suja? Vai que eu engordo? Vai que amassa?”, pensava ela. Então, fez tudo direitinho para não ter que fazer ajuste algum. Comeu de forma controlada a sua comidinha sem tempero e sem gosto, evitando ao máximo comer doce e carboidratos, principalmente à noite.  
Como o vestido era lindo! Todo de renda, marcava bem a cintura, deixava evidente o seu bumbum, e os seus seios, um pouco avantajados, ficaram muito bem encaixados no decote. O vestido dos sonhos se tornou realidade.
Estava sentada na sala de espera, toda nervosa, quando Joana, a costureira, surgiu pela porta segurando o vestido envolto em uma capa preta.
- Está na hora de experimentar o vestido pela última vez, mocinha! Preparada para fortes emoções? - Perguntou a costureira.
- Siiiim! Ai, que emoção, gente!!!! - Gritou Ana empolgada, dando um salto da cadeira e arrancando o vestido da mão da modista.
- Acompanhe-me até a sala de prova, por gentileza.
Ana acompanhou a costureira, bem como suas madrinhas e também sua família... uma verdadeira procissão.
- Quer ajuda para colocar, filhinha? Talvez para subir o zíper? - Perguntou a mãe.
- Claro que não, mamãe! A costureira vai me ajudar, quero fazer surpresa!
Assim, foi até o provador acompanhada de Joana, para, enfim, colocar o vestido e mostrá-lo a todo mundo.
No momento em que Ana colocou o vestido, ele entalou na sua cintura e não queria subir de jeito nenhum. Ela puxava o vestido com toda a força que tinha e ao mesmo tempo pulava, deitava no chão, gritava, girava e nada do vestido entrar. De repente, todo mundo que a acompanhava foi até o provador perguntando o porquê de tantos gritos. Ao verem aquela cena um pouco cômica em que Ana se encontrava deitada no chão com uma cara de pavor, rolando e tentando vestir o vestido, não conseguiram segurar a gargalhada.
Riram tão alto da situação que Ana se assustou e começou a chorar, sem entender o motivo do deboche das pessoas, já que o vestido dela, faltando dois dias para o casamento, mal servia.
- PAREM DE RIR DE MIM! ME AJUDEM! COMO VOU CASAR? NÃO TEM COMO ADIAR O CASAMENTO! OU TEM? - Berrou a noiva.
- Ana, como você é ridícula! Você não fez regime, comeu 3 petit gateau em um único dia, entrou em uma banheira cheia de doce de leite e ainda esperava que o vestido servisse perfeitamente em você? - Indagou de forma irônica uma das madrinhas que a acompanhava.
Ana, desesperada, começou a chorar e a gritar e a se bater por se sentir culpada por ter comido três petit gateau e isso ter resultado no desastre que era o vestido não servir.
- Mas, espera aí.. Como você sabe que eu comi 3 petit gateau? E como você sabe da banheira? Nem aconteceu... – Indagou Ana surpresa.
- Eu sei de tudo, Ana. Eu sei tudo o que você pensa, sente, sofre e come. Eu sou você, menina idiota.
- NÃÃÃÃÃÃO - gritou Ana desesperada.
Quando olhou ao redor, se viu sozinha em um quarto com aquela mesma banheira cheia de doce de leite bem a sua frente. Na mesma hora, Ana correu para a direção contrária, mas alguma força a levava de encontro à banheira. Começou a rezar, a pedir pelo amor de Deus, jurou que nunca mais comeria nenhum doce antes do casamento.
Como num passe de mágica, Ana caiu da cama, indo de encontro ao chão de pedra de seu quarto. Percebeu que estava sonhando. Ainda meio zonza, jurou, ao pé de seu altarzinho, diante da imagem de Santo Antônio, que não colocaria uma gotinha sequer de açúcar na boca até o casamento. Depois de muito rezar, correu até seu criado mudo e jogou fora todas as guloseimas que lá se encontravam. Mas, antes de jogar no lixo a sua barra de chocolate preferida, fez questão de comer um quadradinho. Enquanto comia, veio o seguinte pensamento: “Chocolate é tão gostoso, docinho, prazeroso... Será que o casamento é assim também? “   

E, assim, envolta por esse pensamento, mesmo depois da choradeira, da promessa e dos doces jogados no lixo, acabou com a barra de chocolate que tanto amava, depois foi até o lixo e comeu todos os doces que lá havia. Quando terminou, lambeu as pontas dos dedos e voltou a dormir um sono leve e rejuvenescedor antes nunca dormido, antes de ir, enfim, buscar o vestido de casamento na costureira. 

Entre vielas



E foi entre vielas
E também no meio de muita gente
Que eu achei um pedaço de mim
Nas paredes
Nas praças
No pôr do sol
No ar
Nas igrejas
Nos becos
Nas casas que um dia eu morei
No chão que um dia eu pisei
Felicidade da alma foi o que eu encontrei
Foi lá também que um pouco de mim eu deixei
Mas eu fiquei em cada lágrima derramada que caiu na grama
Em cada olhar deslumbrado
Em cada exclamação de alegria
Em cada riso fácil
Aquela praça me fez ter saudade de não sei o que
Talvez eu tenha sentido falta de tudo que vivi ali
De tudo que eu amei
Construí
Plantei
Colhi
Saudade de mim, ali
Lugar onde a natureza e a construção humana se unem em tamanha beleza e equilíbrio
E fazem os olhos transbordarem
E o coração bater mais forte
Nunca senti nada igual
Por entre vielas eu me encontrei
Por entre elas eu fiquei
Mas não tem nada não
Ainda volto pra buscar o pedacinho que de mim lá ficou.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O engenheiro e a bailarina

Eu, tão cheio de fórmulas aritméticas
Tão cheio de pensamentos objetivos
Tão racional
Tão preocupado com o esboço do edifício e em como fazê-lo sólido
Me vi paralisado na imagem de uma bailarina
No palco, dançando
Tão leve, tão plena
Tão anônima pra mim
Suas formas lindas se mexem com tanta precisão
Precisão essa que nunca havia visto
Agora, eu me via preocupado com a fórmula de chegar até seu coração
Eu, tão duro e sistemático
Tão matemático e problemático
Me vi querendo me perder entre sua dança
Entre seus movimentos
Cada salto que ela dá, me bate aqui no peito
Me imaginei desfazendo seus cabelos presos como um broto de flor no topo da cabeça
E o cabelo se mostrando liso, caindo pelos ombros
Quero tirar suas sapatilhas
Quem sabe fazer uma massagem em seus pés
Doloridos 
Machucados
Mas toda essa dor vem da vontade dela de realizar o sonho de ver a platéia aplaudir e vibrar
Não por ela, mas pela dança tão perfeita que se mostra por meio dela
Bailarina, deixe-me fazer parte de seu espetáculo
Quero aprender a construir sorrisos em seu rosto
A projetar luz em seus olhos
Quero saber exatamente a medida de seus quadris e até onde meus dedos podem tocar
Eu que sempre fui descrente
Tão displicente com o amor
Me vi, num espetáculo de dança, completamente entregue à bailarina
Eu queria massagear seus pés provavelmente cansados
Bailarina, queria te tirar do palco e te levar para mim
Talvez fecharia a cortina 
Estou aqui, no teatro, a observar-te tão de longe e a imaginar como seria a nossa vida juntos, e você, tão livre no palco, sem nem desconfiar que um dia o seu espetáculo poderia acabar
Dance, bailarina! Dance! 
Salte, bailarina! Gire!
Esse é o seu mundo
Vou ficar a te olhar de longe
Não quero me aproximar, pois nunca me perdoaria se um dia a fizesse chorar por nunca mais poder dançar
Tão linda, tão plena
Despeço-me de ti com um beijo imaginário
Abro a cortina que fechei para você poder ir embora
E saltar
E dançar
E amar
E enfim
Ser feliz.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O meu lugar

Onde as montanhas encontram o céu
É lá onde quero morar
Quero me enraizar
É lá onde sinto o calor do sol que cora meu rosto
Sinto a brisa suave do vento beijar minha face quente desse sol
A natureza de onde quero morar é tão bela
Lá, eu encontro pessoas amigas que querem meu bem
Inveja e negatividade não tem
De longe vejo as montanhas
Pra que mar?
Vejo árvores e todas as vidas possíveis
A terra que firma meus pés é fresca
É sagrada
Sinto a terra embaixo dos meus pés
Sinto a natureza me abraçar
Procuro formigas, não quero pisá-las
Eu nunca havia reparado nas formigas!
No lugar onde quero morar, é cheio de borboletas que nunca vi igual
O vento que balança o mato, já crescido, ecoa paz
No lugar onde vou morar, tem um céu tão azul que é impossível de imaginar!
As nuvens que encobrem o céu, parecem algodão
E o céu à noite? 
Fotografia nenhuma seria fiel à realidade de estar lá
Sinto meu coração vibrar de alegria por saber que esse lugar existe
E está perto de mim
É aqui onde quero morar.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Versos para ela

Não existe ninguém mais marcante do que ela
O som que sai dela
Nunca há de ter igual
O sorriso em seu rosto
Ah, quando ele aparece
Sinto a magia no ar
Se ao menos você soubesse
Que todos os olhares são seus
E que todo mundo quer um pedacinho
Do coração grande que é o seu
Esses olhos de menina hão de ganhar o mundo
A sua inteligência e sapiência
Longe irão te levar
Tão menina e tão mulher
Marcante
Vibrante
Ainda ei de conquistar um cantinho nesse seu olhar
Que olha sem julgar
Que quer apenas encontrar um lar
Quem sabe em seu coração 
A semente da amizade irei plantar?
E, assim, um futuro amor florescerá. 




segunda-feira, 6 de junho de 2016

A aprendiz do hoje

E ela só quer agradecer. Pelo dia. Pela vida. Pelo trabalho. Pela família. Pelos amigos. Pelo amor que ela tem.
Ela quer agradecer à Deus. Ele que mostra pra ela, aos trancos e barrancos, que ela merece e deve ser feliz. Todos os dias sempre que acorda, ela ajoelha e agradece. Com o coração tranquilo e em paz, hoje ela entende o que precisou passar para com o coração poder estar pulsando devagar. E finalmente poder respirar e nunca deixar de flutuar entre ser ela e ser só dela. Hoje ela entende que precisou se encarar. Todo o medo veio à tona, todo o anseio da reprovação bateu à porta. "Quero agradar todo mundo" sempre dizia ela, "quero ser perfeita!". Pobre menina, isso é impossível. E é mesmo. Agora leve ela sabe estar, discussões ela deixou pra lá.
Hoje ela só quer saber de agradecer por um novo ciclo ter se iniciado e, com ele, a limpeza interna e externa. Pessoas pesadas se foram, mas muitas ainda virão. Quanto à essas, hoje ela saberá como lidar. Será que o seu coração ela vai conseguir blindar? Muitas máscaras caíram e muitas ainda cairão. Será que a máscara que um dia ela vestiu ainda voltará para assombra-la? Hoje não. Hoje ela tem um sorriso no rosto de quem sabe que a única pessoa que ela precisa agradar é, simplesmente, ela mesma. E ela sabe também que precisa ser o que ela sempre foi para continuar tendo paz: pureza.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Trigêmeas

Elas são demais
Melhores do que muitos casais
Elas formam 3 sorrisos
6 olhos lindos a se olhar
Com carinho e ternura
Quanta coisa pra sonhar
Quanta coisa ainda pra viver
3 corações juntos a vibrar
Cada conquista de uma, reflete na outra
Cada tristeza vivida, compartilhada é
E vira acalento
Tão diferentes elas são
Mas tão iguais no amor
Elas formam um trio
Estão entrelaçadas
Quem sabe se pra sempre? 
Mas, sinceramente
Pra sempre serão as 3.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Amor visceral

Pedi tanto até que você veio
Sorrateiro
Devagar
Mas já mostrando que veio pra ficar
Seu olhar me marca 
Seu beijo da minha boca não sai
Seu carinho virou tatuagem
Seus dedos na minha cintura fazem morada
Meus pensamentos só fazem pensar nas suas palavras 
Estou impregnada de você
Quero me afundar cada vez mais
No seu peito
Nos seus cabelos
Na sua língua
No seu toque
Me deixe afundar por completo
Mas antes de me soterrar
Me deixe perguntar: permita-me aproximar do seu amor?
Quando concordar, ei de descansar
Na areia movediça que é te amar.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Jeito de fogo


A menina do cabelo vermelho
Linda e cheia de graça
Indecisa com coisas da vida
Mas decidida em caráter
Por onde passa, deixa rastro de fogo
Não por causa do cabelo
Mas por causa do seu jeito
Muito lindo de ser ela
Ela transborda em sua essência
De baunilha
De pimenta
De ser fantástica e só dela
Quem se aproxima quer ficar
Sair de perto nem pensar
Sua amizade passa a ser essencial
E nunca morre
Ela vai regando, regando
Até criar raízes fortes
Ela vai regar sua amizade para sempre.


terça-feira, 12 de abril de 2016

Fantasmas do ciúme

Maria era a senhora mais simpática da vila. Viúva a um tempo, investia toda a sua energia de idosa em conquistar o partidão do bairro, o senhor Joãozinho. Todo dia, ela saía para dar uma volta pela vila, toda perfumada, maquiada, arriscando até a passar um batom cor de rosa. Quando via Joãozinho, sentia um alvoroço de menina nova e logo começava a se abanar.  Mariazinha morava sozinha e queria muito uma companhia masculina, claro. Tinha sonhos quentes e acordava febril, chamando por Joãozinho. No entanto, nesses sonhos, sempre tinha a imagem do falecido com os olhos de reprovação bem em cima dela, observando tudo que fazia.
Ela e Joãozinho trocavam olhares há muito tempo e estavam começando a se conhecer melhor. Em suas caminhadas matinais, sempre ficavam muito tempo conversando e contanto sobre as suas vidas já muito vividas. Papos sobre doenças, dores e remédios quase não eram falados. A hora do dia em João mais gostava, certamente, era a manhã. Acordava bem cedo pra pegar o sol da manhã e dar aquela coradinha. Comia bem e se exercitava todos os dias, tudo conforme orientado pelo Dr. Fábio. Joãozinho gostava das conversas com Maria porque ela o fazia esquecer da tremedeira e da osteoporose, e também porque ela o fazia rir como se ainda fossem jovens. 
Sua filha, Vandinha, dormia semanalmente na casa do pai, dando-lhe os remédios que o velho se recusava a tomar por pura teimosia, ou não. 
- Toma, papai – disse Vandinha, enfiando guela abaixo o remédio no pai.
- Você está me matando, não quero esses remédios, não preciso disso! – disse João, engasgando em meio à remédios, goles de água e muita relutância.
Um belo dia, dona Maria foi até a casa de Joãozinho num horário que a filha não estava para perguntar o porquê de ele não ter feito sua caminhada naquele dia.
- Bom dia, seu Joãozinho! Como o senhor está se sentindo? – perguntou Maria
- Não tô bem não, minha filha quer me matar – disse, simplesmente.
- O QUÊ? – Dona Maria deu um salto e soltou um grito agudo de espanto.
- Isso mesmo, Mariazinha... e a senhora precisa me ajudar a fugir daqui.
- Mas ela te prende aqui nessa casa?
- Sim, quando ela vem, ela me amarra na cama e não me deixa sair.. só faz me entupir de remédio.
- Que absurdo! Olha, farei tudo o que quiser, conte comigo. Não quero nem saber o que está acontecendo, quero apenas te ajudar a resolver.
- Ótimo. Hoje à noite, pode ser?
- Pode. Estarei aqui.
Maria passou o dia todo muito ansiosa, roendo as unhas e  imaginando o que João iria propor a ela como ajuda. Será que deveria ter tido mais cautela? Será que deveria se envolver? Como seria a fuga dele? Viveria longe de Joãozinho? 
Deu o horário e Maria tratou logo de ir pra casa dele.
Bateu duas vezes na porta e nada. Achou estranho, pois o carro de sua filha estava parado bem na porta da casa.
Bateu novamente, dessa vez mais forte e mais insistente. Nada.
Tocou a maçaneta e percebeu a porta destrancada.
Assim que a abriu, se deparou com Vandinha estirada no chão, cheia de sangue na cabeça. Ao seu lado, estava Joãozinho sentado acariciando o rosto da filha.
- João, o que você fez? Valha-me Deus!
- Eu queria sair da cama de qualquer jeito e ela não deixava... quando ela saiu do quarto, consegui me soltar e me agarrar à jarra de água para me proteger caso ela voltasse. Assim que voltou, ela ficou possessa ao me ver solto e veio pra cima de mim! Para me proteger, dei-lhe uma jarrada bem na cabeça. E pronto. Agora está morta e eu estou livre.
- Livre? Como você acha que escapará desse crime absurdo? Como foi capaz de matar a sua própria filha?
- Eu não matei a minha filha. Você matou – disse João com os olhos fincados nos de Maria.
- EU? Eu acabei de chegar aqui! Eu não matei ninguém!
- Você não faria isso por mim? Onde está o amor que sentia por mim? E nossas caminhadas, conversas, risadas? Não valem de nada?
Maria ficou em choque e chegou até a pensar que Joãozinho a conquistara para ter uma cúmplice, não um amor.
Enquanto Maria, atordoada, tentava sair da casa, João pegou-a pela cintura, enfiou em suas mãos a jarra ensanguentada e a jogou em cima do corpo de Vandinha. Com o baque, acabou desfalecendo.
Quando acordou, estava presa. Desesperada, chamou o carcerário e disse que havia um engano, que não matara ninguém. Tudo em vão.
Sentiu algo no bolso e, quando foi ver o que era, viu-se olhando para um bilhete de Joãozinho que dizia o seguinte: “Obrigado, minha Mariazinha, por ter prometido fazer de tudo para me ajudar. Serei eternamente grato à você e ao seu amor."
Nesse instante, Maria acordou assustada, toda suada, ofegante e trêmula, agradecendo por tudo ter sido apenas um sonho. 
Quando saiu de casa para mais uma voltinha matinal, depois de se recuperar da noite agitada, encontrou com João. Um misto de surpresa e medo veio à tona. Não houve retribuição ao aceno de mão e muito menos o beijinho no rosto. Joãozinho olhou para Maria sem entender nada e teve a infeliz ideia de perguntar: "Dormiu bem?!" Maria arregalou os olhos e foi correndo para casa. Chegando lá, acendeu uma vela para o defunto e mandou rezar uma missa para que ele parasse de atormentá-la com esses sonhos horríveis. “Defunto apegado, me deixa viver em paz”, pensou Mariazinha antes de tirar a foto do marido da parede da sala de jantar.
Nesse dia, Mariazinha dormiu muitíssimo bem, mas não sonhou. Não sonhou porque tinha, finalmente, Joãozinho do seu lado beijando-a, amando-a e a fazendo sentir como se tivesse 20 anos de idade.
Pela manhã, quando ainda estavam despertando, batidas fortes na porta ecoavam pela casa inteira, alertando-os.
- Mas quem será tão cedo? – perguntou Mariazinha preocupada.
- Deve ser o entregador de pão – respondeu Joãozinho.
Maria foi até a porta e, quando a abriu, havia dezenas de policiais.
- O que aconteceu, policiais? – perguntou assustada.
- O senhor João Augusto se encontra? – responderam bruscamente.
- Sim.. mas o que houve?
- Vá chama-lo, por favor!
Enquanto o policial insistia que Maria fosse chamar João, ouviu-se um estrondo na cozinha. Os policiais chegaram, mas já era tarde demais. Joãozinho quebrou a janela e fugiu. Os policiais até tentaram captura-lo, mas já era tarde demais. Velho ligeiro.
Maria, visivelmente abalada, foi amparada pelos policiais antes de desmaiar.
Quando acordou, vários olhos ansiosos a olhavam e ofereciam água. Quando recuperou a consciência, finalmente perguntou:
- Podem me falar agora que raios aconteceu?
- A filha de Joãozinho, a Vanda, foi encontrada morta hoje cedo, na casa dele.
- Meu Deus, coitada! Mas o que ele tem a ver com a morte dela?
- Ele é o principal suspeito. Uma jarra foi encontrada do lado do corpo dela.
Nesse momento, a imagem do falecido veio em sua cabeça com um olhar de quem fala: “Eu avisei”.
Maria, gelada por dentro, pediu para que todo mundo se retirasse, pois precisava digerir tudo aquilo. Assim que saíram, pegou a imagem de Gerônimo e a colocou de volta na parede junto com uma vela perfumada, jurando fidelidade até que se encontrassem no céu, ou no inferno, novamente.



segunda-feira, 4 de abril de 2016

Liberte o seu ser


Deixe o açúcar do seu ser dominar o seu ímpeto
Se permita ir adiante sem tantos impedimentos
Sem tantas análises e táticas
Nem tudo é como você pensa
Nem tudo está ao seu alcance  
Suas observações são aquilo que você quer ver    
Você não é o que diz ser
Mas você não precisa ser tudo que diz
Porque você é aquilo que não diz ser
Que não se mostra
Que se esconde
Você é apenas o que é
Deixe aparecer o seu ser
E você vai descobrir que é melhor que você.


domingo, 3 de abril de 2016

O passarinho


Passarinho gosta é de voar
Gaiola nem pensar
Seu vôo é livre e sem destino
Mas quando tem um lar
Tem pra onde voltar
Passarinho quando canta
Pode ser de alegria ou dissabor
Passarinho que fica preso mas não sabe, sente desconforto
Precisa encontrar a janela
Ou a fresta da porta
Ou o buraco no portão
Precisa espiar lá fora e lembrar da liberdade, do vento
Mas não
Ele não quer espiar
Quer é voar.

quinta-feira, 31 de março de 2016

A primeira crônica "Surpresas da rotina"

Júlia fazia exatamente a mesma coisa toda manhã. Acordava às 06:30, escovava os dentes, lavava o rosto e ia pra padaria que fica na esquina de sua casa tomar o café da manhã. Sim, ela não toma banho de manhã, toma na noite do dia anterior. Mesmo pedido todos os dias: tapioca e suco de maracujá "pra começar o dia bem calma", era o que dizia. 
Como era mesmo o nome da atendente?
Sentava sempre na mesma mesa, aquela perto da televisão, pois gostava de saber dos acontecimentos desde bem cedo. Naquele dia, um homem havia sido assassinado bem na porta de casa por motivo até então desconhecido. A notícia não chamou muito sua atenção, a tapioca estava saborosa demais. 
Próxima notícia: cão é encontrado morto dentro da caixa d'água do próprio dono. 
- Mas esse noticiário tá muito macabro hoje, moça! Mude de canal, por favor! - disse Júlia impaciente.
- Tá bom, tá bom... - respondeu a atendente entediada com a mão sob o queixo, debruçada no balcão.
Próximo canal: programa do Jhonny Gastro, um nutricionista esportivo. Júlia e a atendente se interessaram bastante, primeiro porque o tal do Jhony era g a t o, outra porque ambas queriam emagrecer.
As duas assistiam bem atentas o programa quando Evódio chegou. Evódio era quase patrimônio da cidade, alguns diziam que ele deveria ser tombado. Um velho engraçado por essência, pois sua história não era nada feliz.
- Ahhh, mas que bobagem esse programa! Coitado do ovo, um dia ele mata, no outro ele é essencial pro corpo - disse Evódio, soltando uma gargalhada bem alta - Esse pessoalzinho não decide se o ovo faz bem, ou se faz mal! Pode ser que ele tenha crise de identidade, pobrezinho! Como ninguém se decide, eu trato logo de comer 3 por dia enquanto ele está na fase do "faz bem!"
- Nossa, Seu Evódio... Faz mal pro colesterol! O senhor não estava com o colesterol alto?! - Perguntou Júlia preocupada.
- Dra., pára com isso que não é dia de consulta! 
- Tem que se cuidar - insistiu Júlia
- Fui criado com carne na banha... Sou forte! Nada me derruba, Dra.! Deixa eu comer meu ovinho em paz.
Cansada de ouvir a mesma estória todos os dias, Júlia voltou a sua atenção para Jhony. Quando estava quase acabando o programa, bem na parte em que passavam alertas quanto ao consumo do ovo em excesso, o sr. Evódio deu um grito e caiu da cadeira, com a mão no peito e dizendo:
- Maria, traga meu ovo, por favor.. Meu último pedido! 
Júlia deu um sobressalto da cadeira e foi em direção à Evódio para tentar socorrê-lo, mas a única coisa em que conseguia pensar era: "Mas o nome dela não era Geralda? Maria não tem nada a ver com ela." E nesse empasse de como deveria se chamar a atendente, Evódio morreu balbuciando: "Traga meu zoiudo..." 
E assim, desse jeito, Evódio bateu as botas por causa de infarto fulminante e ainda sem realizar o seu último desejo: um ovo fritinho bem gostoso.

SURPRESA MAIS DO QUE FELIZ

Que grata surpresa me reencontrar nesse blog que há tanto tempo eu fiz e que nem me recordava mais... Muito feliz de me conectar novamente com a Eloá que publicou esses textos e que desde muito tempo gosta de escrever e de se expressar por meio de poesias, textos, crônicas.. Fiz esse blog na época que ainda cursava Direito e estava vivendo uma vida meio conturbada no amor.

Hoje, encontrei um amor companheiro e logo mais iremos formar o nosso ninho, mais especificamente em setembro.

Sou só gratidão por ter tido esse presente que foi o meu reencontro comigo mesma, uma Eloá que fez e continuará fazendo parte de mim.

Há tempos eu planejava ter um blog onde eu pudesse publicar todos os meus textos e dividir com as pessoas os meus pensamentos. O que eu não sabia é que eu já tinha criado esse espaço há 05 anos.

Muito feliz e emocionada de encontrar esse meu cantinho feito por mim.

Vou continuar alimentando o blog e ao mesmo tempo alimentando a Eloá que sempre teve o desejo de ter um espaço desse pra ela. Vou me alimentar.

Bom restinho de semana à todos!