terça-feira, 28 de janeiro de 2020
Sobre o fim
Foi o seu olhar que me contou sobre o nosso fim. Chorei escondida por alguns minutos sentada no tapete do banheiro. Do nosso banheiro. Por que essa demora? Me distraí lendo uns e-mails. Juntei toda força que ainda tinha e me levantei. Opa, rápido demais. Cambaleei e fui me apoiar na pia. Na nossa pia. As nossas escovas de dente estavam se encostando, uma de frente pra outra, sem fazer ideia de que logo mais iriam se separar. A intimidade das duas me dava saudade da nossa. Com as mãos na torneira, olhei no espelho que me revelou os vários momentos vividos aqui nesse banheiro. Joguei a água no rosto. Isso tá demorando demais, logo ele bate na porta de novo. Sequei os olhos na toalha bordada com a inicial L. Ah, o casamento. Sob o mesmo teto há 5 anos. Foi mês passado que completou. Nem sei qual o nome das bodas de 5 anos e talvez seja melhor nem saber. Que diferença faz agora? Só sei que na de algodão saímos a pé procurando algodão doce pra comer. Achamos. Batemos foto e mandamos pra família e pros amigos. Finalmente consegui sair do banheiro. Entrei no quarto. No nosso quarto. Você não estava. Vem logo, a comida vai esfriar! Fui então pra cozinha e vi você servindo meu prato favorito. Apenas uma criatura de inicial L seria tão cruel ao ponto de querer caprichar no strogonoff de carne pensando que talvez eu me sentisse mais confortada antes da notícia do fim. Comi quieta, saboreando cada garfada, sentindo o gosto da mostarda colocada na medida exata. Você precisa me ensinar como fazer esse prato. Será que dá tempo? Ué, como assim? Nós temos tempo. Ele desviou o olhar e foi se sentar na sala, no sofá. No nosso sofá. Lembro como se fosse ontem da gente na loja de móveis perguntando pro atendente qual era o melhor sofá da loja todinha. Quando ele nos mostrou, deitamos de conchinha pra ter certeza que cabia e que a cabeça ficaria numa posição confortável. Levamos. Hoje, ele é testemunha das conchinhas que ficaram pra outro dia por causa do cansaço e da dor de cabeça. Eu quero ver com quem vai ficar esse sofá. Vamos assistir um filme? Claro! Qual seria? Algum bem triste, tipo fim de casamento. Que tal algum de ação? Só se o principal morrer no final. Ficamos num impasse e resolvemos ir deitar. Nesse dia, dormimos com as costas encostadas uma na outra. De manhã, quando fui escovar os dentes, percebi que as escovas também estavam na mesma posição que a nossa na noite anterior. Depois de semanas, seria hoje a conversa final? Seus olhos e as escovas me contaram que sim.
Assinar:
Postagens (Atom)