Solta esse espinho da mão que faz
sangrar suas costas. Limpa o sangue. Coloca curativos. Solta esse espinho. Não
segura apertado na mão não porque ela também vai sangrar. É pior se alguém
puxar. Eu sei que nos apegamos ao que também nos faz sofrer. Ao que dói. Ao que
sangra. Ao que faz arder sem prelúdios de adeus. Sofremos, choramos, e pior de
tudo: gostamos. Aquele amor sofrido de quem tem muita, muita pressa de se
sentir amado por alguém que não é você mesmo. Quanto mais sofrido, melhor.
Quanto mais machuca e arde, mais faz suspirar e querer? Será um ciclo doloroso
que nunca tem fim? Estamos sobrevivendo de sentimentos saudáveis? O que
ansiamos? Uma cura imediata do sentir? No fundo, queremos fazer brotar o desdém
para não sentir mais nada? Será mais fácil apenas passar pela vida, protegendo
o coração de sei lá o quê? De tanto sentir, de tanto espernear, de tanto
sangrar, de tanto chorar, de tanto se rasgar, de tanto sofrer pra, no fundo, a
nossa real vontade ser a de secar? De esgotar? De nunca mais sentir de novo?