Ana estava noiva há um ano e, na reta final, impôs para si mesma uma
dieta de enlouquecer qualquer um. Ela não podia comer massa, arroz, pão, bolo,
bolacha, coxinha, cachorro quente... Resumindo: Ana só podia comer
alimentos sonsos e sem sabor algum. As pessoas que viviam ao redor dela também
sofriam. Se alguém se atrevesse a comer uma barra de chocolate na sua frente ou
qualquer outra coisa que engordasse, ela ficava irada. Pegava e jogava fora e
ainda dizia: “Você sabe que eu vou casar." Faltando uma semana para o
casamento, Ana já não aguentava mais o regime e estava subindo as paredes de
vontade de comer tudo que via pela frente. Ela não suportava mais salivar de
vontade toda vez que via a coxinha recheada de catupiry brilhando de gordura
toda vez que passava em frente a lanchonete rumo ao trabalho, ou aquele quindim
que reluzia o amarelo cor de ovo na vitrine da padaria perto da sua casa, ou
até mesmo aquele hamburguer que a fazia delirar com seu delicioso cheiro de
carne e queijo cheddar.
Ela, que antes perdia noites sem dormir preocupada com a organização do
casamento, começou a não se importar mais com as reuniões para definir a decoração
do evento, não se preocupava mais em saber a ordem de entrada dos padrinhos e
muito menos qual dama de honra seguraria os balões e qual jogaria as flores.
O que ela queria mesmo, era que o casamento passasse rápido, para poder,
finalmente, atacar os doces da festa e morrer de comer na lua-de-mel.
Um dia, depois que ela e as amigas almoçaram no shopping em um
restaurante de comida natural, leia-se: sem gosto, Barbara e Pamela resolveram
comprar um petit gateau recheado de doce de leite acompanhado de sorvete de
creme, indo contra a vontade da noiva maluca que não podia ver doce. Apesar do
chilique, Ana ficou firme, sem nem ao menos pedir um pedacinho à elas. As
meninas se esbaldaram no doce enquanto assistiam Ana, de cara feia, comendo uma
fatia de abacaxi que pediu no restaurante ao lado.
Enquanto comia seu abacaxi, Ana não conseguia desgrudar os olhos do doce
das amigas, ficando verdadeiramente hipnotizada. Começou a se imaginar dentro
de uma banheira cheia de doce de leite, passando o doce por entre os cabelos e bebendo litros dele goela abaixo.
O devaneio passou rápido quando ouviu as amigas a chamarem para voltar ao escritório. Ana ficou com a imagem do petit gateau o dia inteiro na cabeça. Comia
barrinha de cereal, bananinha diet, uva passa, mas nada fazia aquela vontade
incessante e louca de comer um doce passar. Queria comer uma bacia cheia deles.
Ou quem sabe se afundar na banheira de doce de leite?
No final do expediente, Ana foi até a loja que vendia petit gateau e
comeu três. Três bolinhos doces, perfeitos, macios, quentinhos, caudalosos,
cheirosos e incrivelmente deliciosos. Nunca sentira tanto prazer comendo algo
como dessa vez.
A semana foi passando, até que chegou o grande dia de ir buscar o
vestido na costureira. Ana fez questão de levar todas as suas madrinhas e
também seus pais para presenciarem esse momento que tanto significava para ela.
Finalmente iria buscar o vestido perfeito para casar com o homem dos sonhos que
ela escolheu. Ana quis deixar a data para retirada do vestido bem próxima à
data do casamento, mais precisamente, dois dias antes. "Vai que suja? Vai que
eu engordo? Vai que amassa?”, pensava ela. Então, fez tudo direitinho para não
ter que fazer ajuste algum. Comeu de forma controlada a sua comidinha sem
tempero e sem gosto, evitando ao máximo comer doce e carboidratos,
principalmente à noite.
Como o vestido era lindo! Todo de renda, marcava bem a cintura, deixava
evidente o seu bumbum, e os seus seios, um pouco avantajados, ficaram muito bem
encaixados no decote. O vestido dos sonhos se tornou realidade.
Estava sentada na sala de espera, toda nervosa, quando Joana, a
costureira, surgiu pela porta segurando o vestido envolto em uma capa preta.
- Está na hora de experimentar o vestido pela última vez, mocinha! Preparada
para fortes emoções? - Perguntou a costureira.
- Siiiim! Ai, que emoção, gente!!!! - Gritou Ana empolgada, dando um
salto da cadeira e arrancando o vestido da mão da modista.
- Acompanhe-me até a sala de prova, por gentileza.
Ana acompanhou a costureira, bem como suas madrinhas e também sua
família... uma verdadeira procissão.
- Quer ajuda para colocar, filhinha? Talvez para subir o zíper? - Perguntou
a mãe.
- Claro que não, mamãe! A costureira vai me ajudar, quero fazer
surpresa!
Assim, foi até o provador acompanhada de Joana, para, enfim, colocar o
vestido e mostrá-lo a todo mundo.
No momento em que Ana colocou o vestido, ele entalou na sua cintura e
não queria subir de jeito nenhum. Ela puxava o vestido com toda a força que
tinha e ao mesmo tempo pulava, deitava no chão, gritava, girava e nada do
vestido entrar. De repente, todo mundo que a acompanhava foi até o provador
perguntando o porquê de tantos gritos. Ao verem aquela cena um pouco cômica em
que Ana se encontrava deitada no chão com uma cara de pavor, rolando e tentando
vestir o vestido, não conseguiram segurar a gargalhada.
Riram tão alto da situação que Ana se assustou e começou a chorar, sem
entender o motivo do deboche das pessoas, já que o vestido dela, faltando dois
dias para o casamento, mal servia.
- PAREM DE RIR DE MIM! ME AJUDEM! COMO VOU CASAR? NÃO TEM COMO ADIAR O
CASAMENTO! OU TEM? - Berrou a noiva.
- Ana, como você é ridícula! Você não fez regime, comeu 3 petit gateau em um único dia, entrou em uma banheira cheia de doce de leite e ainda esperava que o vestido servisse perfeitamente em você? -
Indagou de forma irônica uma das madrinhas que a acompanhava.
Ana, desesperada, começou a chorar e a gritar e a se bater por se sentir
culpada por ter comido três petit gateau e isso ter resultado no desastre que
era o vestido não servir.
- Mas, espera aí.. Como você sabe que eu comi 3 petit gateau? E como você sabe da banheira? Nem aconteceu... – Indagou Ana surpresa.
- Eu sei de tudo, Ana. Eu sei tudo o que você pensa, sente, sofre e
come. Eu sou você, menina idiota.
- NÃÃÃÃÃÃO - gritou Ana desesperada.
Quando olhou ao redor, se viu sozinha em um quarto com aquela mesma banheira
cheia de doce de leite bem a sua frente. Na mesma hora, Ana correu para a
direção contrária, mas alguma força a levava de encontro à banheira. Começou a
rezar, a pedir pelo amor de Deus, jurou que nunca mais comeria nenhum doce
antes do casamento.
Como num passe de mágica, Ana caiu da cama, indo de encontro
ao chão de pedra de seu quarto. Percebeu que estava sonhando. Ainda meio zonza, jurou, ao pé de seu altarzinho,
diante da imagem de Santo Antônio, que não colocaria uma gotinha sequer de
açúcar na boca até o casamento. Depois de muito rezar, correu até seu criado
mudo e jogou fora todas as guloseimas que lá se encontravam. Mas, antes de
jogar no lixo a sua barra de chocolate preferida, fez questão de comer um
quadradinho. Enquanto comia, veio o seguinte pensamento: “Chocolate é tão
gostoso, docinho, prazeroso... Será que o casamento é assim também? “
E, assim, envolta por esse pensamento, mesmo depois da choradeira, da promessa
e dos doces jogados no lixo, acabou com a barra de chocolate que tanto amava,
depois foi até o lixo e comeu todos os doces que lá havia. Quando terminou,
lambeu as pontas dos dedos e voltou a dormir um sono leve e rejuvenescedor
antes nunca dormido, antes de ir, enfim, buscar o vestido de casamento na
costureira.