quinta-feira, 31 de março de 2016

A primeira crônica "Surpresas da rotina"

Júlia fazia exatamente a mesma coisa toda manhã. Acordava às 06:30, escovava os dentes, lavava o rosto e ia pra padaria que fica na esquina de sua casa tomar o café da manhã. Sim, ela não toma banho de manhã, toma na noite do dia anterior. Mesmo pedido todos os dias: tapioca e suco de maracujá "pra começar o dia bem calma", era o que dizia. 
Como era mesmo o nome da atendente?
Sentava sempre na mesma mesa, aquela perto da televisão, pois gostava de saber dos acontecimentos desde bem cedo. Naquele dia, um homem havia sido assassinado bem na porta de casa por motivo até então desconhecido. A notícia não chamou muito sua atenção, a tapioca estava saborosa demais. 
Próxima notícia: cão é encontrado morto dentro da caixa d'água do próprio dono. 
- Mas esse noticiário tá muito macabro hoje, moça! Mude de canal, por favor! - disse Júlia impaciente.
- Tá bom, tá bom... - respondeu a atendente entediada com a mão sob o queixo, debruçada no balcão.
Próximo canal: programa do Jhonny Gastro, um nutricionista esportivo. Júlia e a atendente se interessaram bastante, primeiro porque o tal do Jhony era g a t o, outra porque ambas queriam emagrecer.
As duas assistiam bem atentas o programa quando Evódio chegou. Evódio era quase patrimônio da cidade, alguns diziam que ele deveria ser tombado. Um velho engraçado por essência, pois sua história não era nada feliz.
- Ahhh, mas que bobagem esse programa! Coitado do ovo, um dia ele mata, no outro ele é essencial pro corpo - disse Evódio, soltando uma gargalhada bem alta - Esse pessoalzinho não decide se o ovo faz bem, ou se faz mal! Pode ser que ele tenha crise de identidade, pobrezinho! Como ninguém se decide, eu trato logo de comer 3 por dia enquanto ele está na fase do "faz bem!"
- Nossa, Seu Evódio... Faz mal pro colesterol! O senhor não estava com o colesterol alto?! - Perguntou Júlia preocupada.
- Dra., pára com isso que não é dia de consulta! 
- Tem que se cuidar - insistiu Júlia
- Fui criado com carne na banha... Sou forte! Nada me derruba, Dra.! Deixa eu comer meu ovinho em paz.
Cansada de ouvir a mesma estória todos os dias, Júlia voltou a sua atenção para Jhony. Quando estava quase acabando o programa, bem na parte em que passavam alertas quanto ao consumo do ovo em excesso, o sr. Evódio deu um grito e caiu da cadeira, com a mão no peito e dizendo:
- Maria, traga meu ovo, por favor.. Meu último pedido! 
Júlia deu um sobressalto da cadeira e foi em direção à Evódio para tentar socorrê-lo, mas a única coisa em que conseguia pensar era: "Mas o nome dela não era Geralda? Maria não tem nada a ver com ela." E nesse empasse de como deveria se chamar a atendente, Evódio morreu balbuciando: "Traga meu zoiudo..." 
E assim, desse jeito, Evódio bateu as botas por causa de infarto fulminante e ainda sem realizar o seu último desejo: um ovo fritinho bem gostoso.

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