Ele envolvia o corpo dela como se fosse dele. Olhava para os lados como quem quer dizer: é só minha. Acariciava seus cabelos, passava a mão na cintura pra mostrar o troféu vivo de mulher bonita. “Observem o belo corpo que carrego comigo”. Ela olhava pra ele tentando achar que era amor. Mas, no fundo, ela sabia que não era. Ela tentava se desvencilhar do abraço sufocante dele, mas quanto mais ela o afastava, mais pra perto ele a puxava. A mão dela no peito dele pedindo que parasse chamou a minha atenção. Ela de fato era linda, mas não foi isso que saltou aos meus olhos. O jeito que ela olhava pra ele revelou que algo tinha morrido. Talvez a admiração que um dia sentiu por ele, o amor no começo da relação, a expectativa da vida compartilhada, o acreditar nas desculpas dele depois de uma briga. O olhar dela pedia socorro, já que ela mesma não conseguia se salvar. A bebida que ele pediu chegou, e junto uma garrafa de água para ela. Na medida em que ele ia bebendo, os dedos ficavam mais agitados na perna dela. Ela tirava a mão dele de forma suave, mas de nada adiantava. Ele estava disposto a exibi-la até o final da noite. Será que só eu estava percebendo aquilo? Duas horas se passaram e durante esse tempo, me senti angustiada e impotente. Eu os observava de longe e sequer os conhecia, mas sentia como se fosse cúmplice dele. Tentava desviar o olhar, mas não conseguia. No final da noite, já bêbado, ele a agarrou pelo braço e perguntou alto: “Por que você está olhando pra esse cara? Vamos embora!” Talvez estivesse olhando pra pedir ajuda. Talvez estivesse tentando se distrair com a pintura do quadro perto da saída. Ou com certeza ele estava dentro de mais um devaneio. Ela, totalmente envergonhada, pegou a mão dele na esperança de o acalmar, e foi embora. Meu olhar a acompanhou até que entrasse no carro. Infelizmente, meus olhos não alcançaram a chegada deles em casa. A possível briga que tiveram por causa de ciúme dele. O cansaço dela de sempre pedir desculpas por algo inexistente, por algo inventado por ele. Lembro desse dia até hoje e ainda me pergunto se ela conseguiu recuperar a alegria e a vida que um dia escapou dela, mas que gritava latente em seu coração pedindo pra sair.
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